Jeffrey Sachs adverte a Alemanha: Porque é que a segurança da Europa precisa de ser repensada

Na sua carta aberta ao chanceler alemão Friedrich Merz, publicada no Berliner Zeitung de 17 de dezembro de 2025, o conhecido economista e professor Jeffrey D. Sachs pronuncia-se com uma clareza que se tornou rara no atual debate europeu. Sachs não fala como ativista, nem como partidário, nem como comentador à distância, mas como economista e conselheiro político que trabalha há décadas nas interfaces centrais das crises internacionais, das arquitecturas de segurança e das convulsões económicas. A carta aberta contém uma citação invulgarmente incisiva:

„Aprenda história, Sr. Chanceler.“

A carta é menos uma intervenção política da atualidade e mais um documento de argumentação histórica. Nela, Sachs não apela a soluções rápidas, mas sim a um regresso a uma forma de pensar que há muito é um dado adquirido na Europa: a segurança como uma relação recíproca, a diplomacia como um instrumento de estabilização e a honestidade histórica como um pré-requisito para a confiança. O facto de se dirigir diretamente ao Chanceler alemão sublinha o papel especial que, na sua opinião, a Alemanha desempenha na Europa - não como pioneira militar, mas como força organizadora e de equilíbrio.


Questões sociais da atualidade

Últimas notícias sobre Jeffrey Sachs

23.01.2026Numa entrevista recente, Jeffrey Sachs e Glenn Diesen analisam os sinais políticos do Fórum Económico Mundial (WEF 2026) em Davos. O foco é o discurso de Donald Trump e as reacções dos políticos ocidentais. Sachs traça um quadro crítico da Europa: em vez de moldar a sua própria política externa, a UE tem-se limitado a observar e a adaptar-se durante anos. Enquanto outras regiões estão cada vez mais a formular os seus próprios interesses, a Europa parece desorientada e subordinada.


Jeffrey Sachs: Davos - O império americano fora de controlo e a subordinação da Europa Glenn Diesen

A entrevista classifica de forma sóbria esta evolução e apresenta uma análise fundamental da atual situação geopolítica.


Responsabilidade histórica e conceito de segurança

Jeffrey D. Sachs começa o seu carta aberta com uma crítica fundamental à retórica da política de segurança do governo alemão. Segundo Sachs, a responsabilidade pela segurança europeia não pode ser cumprida através da utilização de chavões, da moralização ou da normalização da retórica de guerra. A segurança não é um conceito unilateral, mas baseia-se na reciprocidade.

Este princípio não é uma narrativa russa ou americana, mas um fundamento central da ordem europeia do pós-guerra, estabelecido na Ata Final de Helsínquia, nas estruturas da OSCE e em décadas de diplomacia.

Segundo Sachs, a Alemanha tem de assumir esta responsabilidade com honestidade histórica - um requisito que, na sua opinião, a atual linguagem política não cumpre.

Os interesses de segurança da Rússia ignorados desde 1990

Um argumento central da carta é a tese de que as principais preocupações de segurança da Rússia têm sido sistematicamente ignoradas, relativizadas ou violadas desde o fim da Guerra Fria - muitas vezes com o envolvimento ativo ou a aceitação tácita da Alemanha. Esta história não deve ser ignorada nem relativizada se se quiser pôr fim à guerra na Ucrânia ou evitar um estado de confronto permanente na Europa. Sachs sublinha que a paz sustentável só é possível se as causas reais do conflito forem identificadas e compreendidas.

Sachs recorda em pormenor a fase da reunificação alemã. Neste contexto, foram dadas repetidamente garantias claras à liderança soviética e, mais tarde, à liderança russa de que não haveria expansão da OTAN para leste. Estas garantias não eram observações casuais, mas faziam parte do quadro político que tornou possível a aprovação da reunificação alemã no seio da OTAN. A Alemanha tinha beneficiado consideravelmente com estas garantias.

Sachs descreve a sua posterior relativização ou negação como um revisionismo histórico e uma quebra de confiança política.

As intervenções da NATO e a transformação da ordem de segurança

A carta refere-se aos ataques aéreos da NATO contra a Sérvia em 1999, nos quais a Alemanha participou. Esta intervenção foi efectuada sem um mandato do Conselho de Segurança das Nações Unidas e representou uma violação fundamental da ordem de segurança anterior.

Para a Rússia, este foi um sinal claro de que a NATO estava preparada para utilizar a força militar para além do território da sua aliança - independentemente das objecções russas. Este facto prejudicou permanentemente a confiança estratégica.

Sachs também criticou a retirada unilateral dos EUA do Tratado ABM em 2002, um pilar central da estabilidade estratégica. A Alemanha quase não criticou este passo. A instalação de sistemas de defesa antimíssil perto da fronteira russa foi inevitavelmente considerada desestabilizadora do ponto de vista russo. Desconsiderar estas preocupações de segurança de forma generalizada como irracionais ou paranóicas era propaganda política e não tinha nada a ver com uma diplomacia responsável.

O reconhecimento da independência do Kosovo pela Alemanha, em 2008, criou mais um precedente que pôs em causa o princípio da integridade territorial. Os avisos sobre as consequências a longo prazo foram ignorados. Também neste caso, as objecções russas não foram seriamente examinadas, mas moralmente deslegitimadas - com consequências para a estabilidade da ordem europeia.


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Qual é a sua confiança na política e nos meios de comunicação social na Alemanha?

Perspectivas de adesão à NATO para a Ucrânia e a Geórgia

Sachs é particularmente crítico em relação à insistência numa perspetiva de adesão à NATO para a Ucrânia e a Geórgia, tal como formulada em Bucareste em 2008. Esta política ultrapassou linhas vermelhas claramente definidas.

Se uma grande potência articula de forma clara e consistente os principais interesses de segurança ao longo de décadas, ignorá-los deliberadamente não é diplomacia, mas sim uma estratégia de escalada com consequências previsíveis.

O papel da Alemanha na Ucrânia desde 2014

Sachs dedica uma secção separada ao papel da Alemanha desde a convulsão na Ucrânia em 2014, afirmando que Berlim, juntamente com Paris e Varsóvia, mediou o acordo de 21 de fevereiro de 2014, que se destinava a pôr fim à violência e a garantir a ordem constitucional. Este acordo foi desfeito em poucas horas e foi seguido por uma violenta mudança de poder. A Alemanha reconheceu imediatamente o novo regime político, abandonando assim efetivamente um acordo previamente garantido.

O Acordo de Minsk II de 2015 destinava-se a corrigir esta falha e a pôr fim à guerra no leste da Ucrânia. A Alemanha voltou a atuar como potência de garantia. No entanto, o acordo não foi aplicado durante anos e os seus componentes políticos, em particular, foram abertamente rejeitados por Kiev. A Alemanha aceitou este facto. Sachs considera que as subsequentes admissões públicas por parte de políticos ocidentais de que Minsk deu sobretudo tempo para os preparativos militares é uma admissão séria que exige uma reavaliação honesta.

Críticas ao fornecimento de armas, retórica e manipulação pública

Perante este cenário, os pedidos de mais e mais armas, de uma retórica mais incisiva e de uma determinação demonstrativa parecem vazios para Sachs. Ele critica a comunicação política que ignora a história recente e procura infantilizar moralmente o público.

As sociedades europeias são capazes de compreender que os dilemas de segurança são reais e que as decisões militares têm consequências.

Sachs recorda a Ostpolitik da Alemanha como uma expressão de maturidade estratégica. O diálogo, o controlo dos armamentos, a integração económica e o reconhecimento de interesses legítimos em matéria de segurança tinham contribuído para a estabilidade da Europa. Esta atitude não era uma fraqueza, mas uma condição prévia para a paz. A Alemanha deve regressar a esta maturidade e deixar de apresentar a guerra como inevitável ou moralmente imperativa.

Propostas para uma nova arquitetura de segurança europeia

A carta formula propostas concretas:

  • o fim da expansão da NATO para leste, em especial para a Ucrânia e a Geórgia
  • Neutralidade da Ucrânia com garantias de segurança internacionais
  • Desmilitarização mútua das regiões fronteiriças
  • Levantamento das sanções no âmbito de uma solução negociada
  • Rejeição do confisco dos bens do Estado russo
  • Regresso aos tratados de controlo de armas, como o Tratado INF
  • Reforçar a OSCE como fórum central de segurança da Europa

Racionalidade económica e autonomia estratégica europeia

Sachs alerta para os danos a longo prazo causados à economia europeia pelas políticas de sanções e pelas medidas de expropriação. O comércio legal e a cooperação económica não são um fracasso moral, mas uma expressão de realismo. Autonomia estratégica significa moldar uma ordem de segurança europeia no seu próprio interesse - e não uma subordinação permanente a uma lógica expansiva da NATO.

Apelo final: A honestidade como condição prévia para a paz

Sachs concluiu apelando urgentemente ao Chanceler Federal para que olhasse honestamente para a história. Sem honestidade não pode haver confiança, sem confiança não pode haver segurança e sem diplomacia a Europa corre o risco de repetir os desastres do passado. A história julgará o que a Alemanha recorda - e o que esquece. Desta vez, a Alemanha deve tomar uma decisão consciente a favor da diplomacia e da paz.


A geopolítica da paz - Professor Jeffrey Sachs no Parlamento Europeu Martin Sonneborn

Mudanças na política de segurança da Alemanha

Paralelamente aos debates sobre política de segurança internacional a que Jeffrey Sachs se refere na sua carta aberta, também na Alemanha se registaram mudanças significativas nos últimos anos. Pela primeira vez em décadas, a chamada Queda de tensão um termo da Lei Fundamental que, durante muito tempo, desapareceu quase por completo da vida política quotidiana. Está ligado a questões de segurança interna e externa, ao papel da Bundeswehr e à capacidade de resistência das estruturas do Estado em caso de crise. Neste contexto, a suspensão do serviço militar obrigatório foi também cada vez mais posta em causa.

Vários actores políticos desenvolveram modelos para uma reintrodução, uma obrigação parcial ou uma obrigação alargada. Serviço militar obrigatório O debate sobre o futuro da preparação militar foi iniciado, em parte abertamente, em parte gradualmente, através de ajustamentos jurídicos e de preparativos organizacionais. Estes debates marcam uma profunda mudança de mentalidade: do pressuposto de décadas de uma ordem de paz permanente para uma política que volta a considerar a preparação militar como a norma. É precisamente aqui que o desenvolvimento político interno da Alemanha se cruza com a crítica fundamental de Sachs: quando as questões de segurança são enquadradas principalmente em termos militares, o horizonte político estreita-se. A experiência histórica, as alternativas diplomáticas e os custos sociais são relegados para segundo plano - com consequências profundas para a democracia, a economia e a estabilidade social.


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Em que medida se sente pessoalmente preparado para um eventual caso de tensão (por exemplo, crise ou guerra)?

Breve perfil: Quem é o Prof. Jeffrey D. Sachs?

Jeffrey D. Sachs é um economista norte-americano e um dos mais conhecidos intelectuais públicos no domínio da economia do desenvolvimento e do aconselhamento político internacional. Atualmente, é Professor universitário (o mais alto grau académico da Universidade de Columbia) e Diretor do Centro para o Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Columbia, em Nova Iorque.

É também presidente da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN) e faz parte de comités relacionados com as Nações Unidas, incluindo o de defensor dos ODS junto do Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres. De 2002 a 2016, dirigiu também o Instituto da Terra da Universidade de Columbia.

Origem e moldagem precoce

Sachs nasceu em Detroit (Michigan) em 1954 e cresceu no subúrbio de Oak Park. Em Biografias É frequentemente sublinhado que as tensões e desigualdades sociais na região (incluindo os motins de Detroit) o sensibilizaram desde cedo para o fosso entre pobreza e prosperidade.

É filho de Joan (nascida Abrams) e de Theodore Sachs, que é descrito como um advogado trabalhista; Sachs é também frequentemente retratado como tendo crescido numa família judia.

Formação académica: Harvard, e a uma velocidade recorde

A sua carreira académica é extraordinariamente simples: Sachs estudou na Universidade de Harvard, licenciando-se com um B.A. (1976, summa cum laude), um M.A. (1978) e um Ph.D. (1980) - todos em economia.

Foi aceite na Harvard Society of Fellows quando ainda era estudante universitário, o que constituiu um sinal precoce da sua reputação como um talento excecional.

Anos em Harvard: ascensão ao estatuto de „economista estrela“

Sachs chegou a Harvard como professor em 1980, foi promovido muito rapidamente e, ainda jovem, foi-lhe atribuída uma cátedra titular. Mais tarde, tornou-se Galen L. Stone Professor de Comércio Internacional e dirigiu programas e institutos estreitamente ligados à consultoria política internacional.

Durante esta fase, a sua reputação cresceu como um economista que não só trabalha teoricamente, mas também aconselha diretamente os governos em situações de crise - com propostas de reforma claras e muitas vezes intransigentes.

Década de 1980/1990: a „terapia de choque“ e os debates em torno dela

Sachs tornou-se internacionalmente conhecido pelo seu papel de conselheiro durante convulsões económicas - por exemplo, em países com hiperinflação ou durante a transição de uma economia planificada para uma economia de mercado. Em muitos relatos, é descrito como um dos representantes proeminentes de uma política de estabilização rápida, que é frequentemente resumida sob o termo „terapia de choque“ (reformas rápidas dos preços/moeda, disciplina fiscal rigorosa, mudança rápida de sistema).

É importante referir que esta fase continua a ser controversa até aos dias de hoje. Os apoiantes apontam para os sucessos de estabilização de países individuais, enquanto os críticos sublinham as dificuldades sociais, os efeitos secundários políticos e os falsos incentivos - particularmente nos primeiros anos de transformação na antiga União Soviética. O nome de Sachs aparece regularmente como uma figura simbólica neste debate, tanto em discussões académicas como políticas.

Mudança para a Colômbia: o desenvolvimento sustentável como trabalho de uma vida

Em 2002, Sachs mudou-se para a Universidade de Columbia. Aí dirigiu o Instituto da Terra (2002-2016) e atualmente dirige o Centro para o Desenvolvimento Sustentável.

Desde então, a atenção tem-se centrado menos na „macroeconomia pura“ e mais no desenvolvimento sustentável, na redução da pobreza, na saúde, no clima, nas infra-estruturas e na cooperação internacional. Isto enquadra-se no seu papel de autor e organizador de grandes programas em que a investigação, o aconselhamento político e a comunicação pública estão interligados.

O papel nas Nações Unidas: Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, Objectivos de Desenvolvimento Sustentável e influência política

Sachs esteve ativo nos contextos da ONU durante muitos anos: entre outras coisas, é descrito como conselheiro de vários Secretários-Gerais da ONU e foi uma voz formativa no contexto dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e, mais tarde, dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

A SDSN (Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU), da qual é presidente, é uma espécie de ponte: O objetivo é que a ciência, a sociedade civil, as empresas e a política trabalhem em conjunto para promover soluções viáveis para os objectivos dos ODS.

Impacto público atual: autor, comentador, polarização

Nos últimos anos, Sachs não só se tornou conhecido como economista do desenvolvimento, mas também como comentador político sobre geopolítica, guerra e ordem internacional. Consoante o público, este trabalho tem merecido aprovação ou duras críticas - precisamente porque Sachs sublinha frequentemente que os conflitos internacionais só podem ser resolvidos através de arquitecturas de segurança, diplomacia e equilíbrio de interesses. Não é de admirar que cause ofensa com isto: Sachs raramente argumenta em modo de manchete, mas sim sobre linhas longas, lógica de poder e dependências de trajectórias históricas.

Se resumirmos o percurso de Sachs, surge um padrão claro:

Não é um „economista universitário puro“, mas um economista na sala de máquinas da história - primeiro nas crises monetárias e sistémicas, mais tarde nas agendas globais de pobreza e desenvolvimento e, hoje em dia, cada vez mais em questões fundamentais de ordem de segurança e diplomacia. O seu ponto forte é o panorama geral; o seu risco é que as questões do panorama geral sejam rapidamente mal interpretadas como „partidarismo“ em debates acalorados.

Todos os pontos da carta aberta em resumo

Tempo / Fase O que Sachs critica O que a Sachs exige
1990 (reunificação / fim da Guerra Fria) As garantias de que a NATO não se expandiria para Leste foram posteriormente relativizadas ou apresentadas como „não vinculativas“.
Este facto prejudicou a confiança.
Honestidade histórica relativamente aos compromissos e ao seu significado político; reconhecimento das garantias de segurança como um princípio recíproco
(A segurança é „indivisível“).
1999 (guerra aérea da NATO contra a Sérvia) A participação da Alemanha nos bombardeamentos da NATO sem mandato do Conselho de Segurança da ONU; sinal de que a NATO também pode usar a força fora do seu território
contra as objecções russas.
Regresso a uma ordem de segurança baseada em regras (lógica da ONU/OSCE); não estabelecer a violência como um instrumento normal; reforço da confiança em vez de
Criar precedentes.
2002 (Tratado ABM / defesa antimísseis) Os EUA retiram-se do Tratado ABM; a Alemanha não levanta objecções sérias. Implantação/planeamento de defesa antimíssil perto da Rússia
As fronteiras são consideradas desestabilizadoras.
Reconstrução de uma arquitetura de controlo de armas resistente; não desvalorizar as preocupações de segurança como „paranoia“; estabilidade estratégica como
Tratar o objetivo principal.
2008 (reconhecimento do Kosovo) Reconhecimento da independência do Kosovo, apesar dos avisos de precedentes e de comprometer a integridade territorial. Reconhecimento honesto dos precedentes ocidentais; política regulamentar coerente e compreensível à luz do direito internacional, em vez de princípios selectivos.
2008 (Cimeira da NATO em Bucareste: perspetiva Ucrânia/Geórgia) Compromisso político com as perspectivas de adesão à NATO da Ucrânia e da Geórgia, apesar dos repetidos avisos russos a longo prazo (linhas vermelhas). Fim inequívoco da expansão da NATO para leste (Ucrânia, Geórgia e outros Estados fronteiriços); desanuviamento através de clareza estrutural.
fevereiro de 2014 (Kiev: Acordo de 21 de fevereiro) A Alemanha medeia/garante um acordo sobre o desanuviamento e a preservação da ordem constitucional; o acordo desmorona-se em poucas horas,
Há uma mudança de poder; a Alemanha reconhece imediatamente o novo governo.
Diplomacia consistente com empenhamento; as garantias não devem ficar sem consequências; levar a sério as questões políticas de ordem em vez de apenas „mais
para o passo seguinte“.
2015-2022 (Minsk II como modelo de garantia) Minsk II não seria implementado durante anos; as componentes políticas seriam rejeitadas; a Alemanha não imporia a sua implementação. Mais tarde
As declarações de que Minsk foi mais um „ganho de tempo“ constituem uma grave quebra de confiança.
Reavaliação honesta de Minsk; diplomacia como instrumento de paz em vez de manobras tácticas; futuro quadro negocial com aplicação efectiva
e mecanismos verificáveis.
Desde 2022 (guerra da Ucrânia / dinâmica de escalada) Concentração em mais e mais armas, retórica mais incisiva e „determinação“; ignorar a história anterior; simplificações morais („infantilização“)
em vez de iluminação.
Regresso a uma verdadeira diplomacia (e não relações públicas); reconhecimento dos dilemas de segurança; desanuviamento através da arquitetura política em vez da política simbólica.
Ordem de segurança na Europa A segurança é pensada demasiado em termos da lógica da NATO; a OSCE é marginalizada; a estratégia europeia é demasiado moldada pelos slogans da aliança e pela lógica da expansão. Reforçar a OSCE como fórum central; construir uma ordem de segurança europeia „baseada nos interesses europeus“ (autonomia estratégica) e
Incluir a Rússia em vez de a excluir.
Neutralidade vs. envio de tropas Discussão sobre o envio de tropas europeias para a Ucrânia ou para as suas imediações; na opinião de Sachs, tal iria aprofundar a divisão e prolongar a guerra. Neutralidade ucraniana com garantias internacionais credíveis; estabilidade através de acordos de segurança aceites em vez de estacionamentos avançados.
Reciprocidade militar / zonas fronteiriças Armamento e instalação (incluindo sistemas de mísseis) perto das fronteiras; pensamento de segurança unilateral. Desmilitarização mútua das regiões fronteiriças através de acordos verificáveis: forças russas longe das fronteiras da NATO e sistemas da NATO longe de
Fronteiras russas (reciprocidade).
Sanções As sanções não teriam trazido a paz e teriam prejudicado significativamente a economia da Europa; um endurecimento em vez de uma solução. Levantar gradualmente as sanções como parte de uma solução negociada; restabelecer o realismo económico e o comércio contratual.
Confisco dos activos do Estado russo „Confisco/confisco “imprudente’ dos activos do Estado russo; do ponto de vista de Sachs, uma violação flagrante do direito internacional e uma quebra de confiança no mundo
sistema financeiro.
A Alemanha deve rejeitar tais medidas; preservar a segurança jurídica; a recuperação económica através do comércio legal e baseado em contratos, em vez de
Lógica da expropriação.
Controlo dos armamentos (INF e estabilidade nuclear) Erosão dos quadros centrais de controlo dos armamentos; pouca pressão para regressar aos tratados estabilizadores; risco crescente de escalada. Pressionar para um regresso a quadros semelhantes ao INF e a negociações estratégicas globais sobre o controlo das armas nucleares (EUA/Rússia, mais tarde
China, se aplicável).
Dissuasão europeia / França Debates sobre a dissuasão sem uma contenção defensiva clara; perigo de sistemas avançados que actuam como uma ameaça. A França poderia alargar a sua capacidade de dissuasão nuclear como um guarda-chuva europeu - mas de uma forma estritamente defensiva, sem sistemas avançados que a Rússia
ameaçar.
Analogia Kosovo-Ucrânia / fronteiras A política ocidental contribuiu, ela própria, para a deslocação das fronteiras; no entanto, argumenta-se muitas vezes que isso é unilateralmente „impensável“. Reconhecimento honesto de precedentes e analogias; paz como objetivo global; aplicação de princípios de forma coerente e não selectiva do ponto de vista moral
para justificar.

Porque é que esta carta é mais do que um simples comentário sobre política externa

A carta aberta de Jeffrey Sachs ao Chanceler Merz não é uma declaração isolada, mas faz parte de um debate mais alargado sobre o direito internacional, a lógica de segurança e a credibilidade política. Se quiser aprofundar estas questões, pode encontrar mais informações no artigo suplementar „Ordem mundial baseada em regras e direito internacional: entre a reivindicação, a realidade e a violação da lei“ uma categorização sistemática das estruturas subjacentes. Inclui também um discurso pormenorizado em vídeo de Jeffrey Sachs, no qual este explica as suas próprias posições - de forma calma, analítica e sem chavões políticos. O artigo mostra a rapidez com que o vocabulário normativo se torna uma fórmula vazia quando as violações da lei são declaradas como prática aceite.

O que Jeffrey Sachs formula nesta carta enquadra-se de forma surpreendentemente coerente num desenvolvimento mais vasto que também pode ser observado noutras áreas. No artigo anteriormente publicado sobre a teoria dos jogos Consideração das decisões europeias mostrou como a Europa tem vindo a abandonar cada vez mais o seu antigo papel de ator modelador em favor de lógicas de aliança a curto prazo, de determinação simbólica e de narrativas binárias de amigo-inimigo. No essencial, Sachs descreve precisamente este mecanismo, só que na perspetiva da arquitetura de segurança: as decisões já não são tomadas com base na estabilidade a longo prazo, mas sim com base em expectativas políticas e simplificações morais.

Um olhar sobre o A economia alemã em 2025 se enquadra neste quadro. A substância económica, a resiliência industrial e as condições de enquadramento fiáveis não podem ser permanentemente separadas das decisões geopolíticas. Quem pensar na segurança exclusivamente em termos militares arrisca-se a prejudicar a própria economia. Sachs expressa abertamente esta ligação quando adverte contra o confisco de bens do Estado, descreve as sanções como economicamente contraproducentes e aponta para a erosão da confiança nas regras internacionais. Não se trata de um apelo ao cumprimento, mas à previsibilidade - uma qualidade em que se baseiam tanto a diplomacia como os negócios.

Também é surpreendente o facto de Sachs não estar a apelar a algo fundamentalmente novo. Pelo contrário: a sua carta recorda os princípios que sustentaram a Europa durante décadas. A Ostpolitik, o controlo dos armamentos, a neutralidade como instrumento de estabilidade, os fóruns multilaterais como a OSCE - nada disto são ideias exóticas, mas elementos comprovados da história europeia do pós-guerra. O facto de serem frequentemente retratadas como ingénuas ou ultrapassadas hoje em dia diz menos sobre a sua eficácia do que sobre o estado do debate político.

É precisamente por isso que a carta é tão irritante - e, ao mesmo tempo, tão necessária. Rompe com a tendência atual de reduzir inter-relações complexas a fórmulas morais curtas. Sachs não parte do princípio de que o público europeu é imaturo, mas confia nele para compreender os dilemas de segurança. Esta atitude contrasta com a comunicação política, que se baseia cada vez mais na simplificação, na emocionalização e na falta de alternativas.

Neste sentido, a carta aberta não é apenas uma crítica a decisões políticas específicas, mas também um comentário indireto sobre o estado do pensamento europeu. Coloca a questão de saber se a Europa está novamente pronta para assumir a responsabilidade no sentido original: não através do barulho, mas através da sobriedade estratégica; não através da escalada, mas através da ordem; não através do esquecimento da história, mas através da recordação.

Resta saber se estas questões serão ouvidas. Mas colocá-las é um primeiro passo necessário - não só para a ordem de segurança europeia, mas também para a estabilidade económica, política e social em que a Europa há muito prospera.


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Perguntas mais frequentes

  1. Quem é Jeffrey Sachs e porque é que a sua voz é relevante?
    Jeffrey D. Sachs é um economista de renome internacional, professor universitário na Universidade de Columbia e consultor de longa data de governos e das Nações Unidas. A sua relevância não resulta de comentários políticos quotidianos, mas de décadas de trabalho sobre crises internacionais, processos de transformação e questões de segurança. Os seus argumentos são sobretudo históricos, sistémicos e de longo prazo - independentemente das linhas político-partidárias.
  2. Porque é que Sachs dirige a sua carta aberta diretamente à Chanceler alemã?
    Tradicionalmente, Sachs vê a Alemanha como uma potência-chave na Europa - não principalmente a nível militar, mas a nível político, económico e diplomático. Na sua opinião, a Alemanha tem uma responsabilidade especial pela estabilidade, equilíbrio e mediação na Europa. A carta deve, por isso, ser entendida menos como uma crítica pessoal do que como um apelo a este papel histórico.
  3. Qual é a mensagem central da carta aberta?
    A mensagem central é: a segurança europeia é indivisível e não pode ser permanentemente organizada contra os interesses de segurança da Rússia. Sachs apela à honestidade histórica, a uma diplomacia séria e ao abandono de uma lógica puramente militar de escalada em favor de uma arquitetura de segurança estável e inclusiva.
  4. Será que a posição de Sachs justifica a política russa?
    Não. Sachs não justifica as acções militares, mas analisa as condições da política de segurança que conduziram às escaladas. A sua abordagem segue a teoria clássica do dilema de segurança: a falta de consideração pelos interesses centrais de uma grande potência aumenta a probabilidade de conflito a longo prazo - independentemente dos julgamentos morais.
  5. Porque é que o alargamento da NATO a Leste desempenha um papel tão importante na carta?
    Sachs vê a expansão da OTAN para leste como uma decisão política com consequências previsíveis em termos de política de segurança. Refere-se a garantias anteriores, linhas vermelhas e avisos repetidos da Rússia. Na sua opinião, ignorar estes sinais não é diplomacia, mas uma estratégia deliberada de escalada.
  6. Que significado atribui Sachs à reunificação alemã?
    A reunificação alemã serve a Sachs como um exemplo histórico de diplomacia bem sucedida: só foi possível porque as promessas de segurança foram levadas a sério. Daí deriva a obrigação da Alemanha de não suprimir esta experiência histórica, mas de a utilizar como referência para a política atual.
  7. Porque é que Sachs critica a intervenção da NATO na Sérvia em 1999?
    Considera que se tratou de uma violação da ordem do pós-guerra, uma vez que foi a primeira vez que uma intervenção militar teve lugar sem um mandato da ONU. Para a Rússia, isto significou que as regras internacionais estavam a ser aplicadas de forma selectiva - uma perda decisiva de confiança na arquitetura de segurança europeia.
  8. Que papel desempenham os acordos de Minsk na sua argumentação?
    Para Sachs, os acordos de Minsk são um exemplo de diplomacia falhada. A Alemanha actuou como potência de garantia, mas não impôs a sua aplicação. Sachs considera que a admissão posterior por parte de políticos ocidentais de que Minsk se destinava sobretudo a ganhar tempo constitui uma grave quebra de confiança.
  9. Porque é que Sachs se opõe tão claramente a mais entregas de armas?
    Argumenta que o fornecimento de armas prolonga os sintomas mas não resolve as causas. Sem uma solução política, prolongariam a guerra, aprofundariam a divisão e alimentariam ainda mais a espiral de escalada - com custos crescentes para a própria Europa.
  10. O que é que Sachs entende por „infantilização moral“ do público?
    Critica a comunicação política que reduz questões de segurança complexas a chavões moralistas. Sachs parte do princípio de que as sociedades europeias são perfeitamente capazes de compreender interesses conflituosos, dilemas e contextos históricos - se lhes for dada informação honesta.
  11. Que papel deve desempenhar a neutralidade, segundo Sachs?
    Sachs não vê a neutralidade como uma fraqueza, mas como um instrumento comprovado de estabilidade. Na sua opinião, exemplos históricos como a Finlândia, a Áustria e a Suíça demonstram que a neutralidade pode ter em conta os interesses legítimos de segurança de todas as partes e atenuar os conflitos - incluindo no caso da Ucrânia.
  12. Porque é que Sachs apela ao fim da expansão da NATO para Leste?
    Não vê o alargamento como uma consequência inevitável da ordem do pós-guerra, mas como uma decisão política com consequências desestabilizadoras. Na sua opinião, a paragem é uma condição prévia para a confiança, o desanuviamento e o estabelecimento de uma nova ordem de segurança.
  13. Que aspectos económicos salienta Sachs em particular?
    Sachs alerta para os danos a longo prazo causados por sanções, expropriações e perturbações do comércio. Sachs argumenta que a estabilidade económica, o desempenho industrial e a coesão social estão intimamente ligados às decisões em matéria de política de segurança - especialmente para a Alemanha.
  14. Porque é que Sachs rejeita o confisco dos bens do Estado russo?
    Na sua opinião, trata-se de uma violação do direito internacional e de uma ameaça para o sistema financeiro mundial. Se os bens do Estado forem confiscados politicamente, isso compromete a confiança, a segurança contratual e, a longo prazo, os interesses económicos europeus.
  15. Que papel deverá a OSCE desempenhar no futuro?
    Sachs apela a um regresso à OSCE como fórum central para a segurança europeia. Ao contrário da NATO, esta foi concebida para o diálogo, a criação de confiança e o controlo de armas e poderia permitir uma arquitetura de segurança mais inclusiva.
  16. Como é que a análise de Sachs se enquadra nas considerações da teoria europeia dos jogos?
    A sua carta pode ser facilmente lida como uma análise da teoria dos jogos: A Europa tinha tomado repetidamente decisões que pareciam coerentes a curto prazo, mas que criavam desvantagens estratégicas a longo prazo. A escalada não é um estado de equilíbrio estável, mas conduz a uma incerteza permanente.
  17. A abordagem de Sachs é realista ou nostálgica?
    A abordagem de Sachs é menos nostálgica do que historicamente fundamentada. Refere-se a modelos funcionais do passado e argumenta que os seus princípios básicos - diálogo, reciprocidade, previsibilidade - ainda são válidos atualmente, independentemente da alteração das condições de enquadramento.
  18. Porque é que esta carta aberta é importante neste momento?
    Porque a Europa está num ponto em que a política de segurança e as decisões económicas e sociais estão cada vez mais interligadas. A carta de Sachs não oferece uma saída fácil, mas um raro momento de clareza - e lembra-nos que a paz não vem do volume, mas da estrutura.

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